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Entrevista com Edson de Oliveira Andrade, presidente do CFM
Em entrevista exclusiva, o presidente do CFM analisa o ensino médico no país e outros grandes desafios das entidades médicas brasileiras
Qual a sua avaliação sobre a abertura de escolas médicas?
A abertura desordenada de faculdades mostra um descompromisso com a qualidade, pois transforma a formação médica em um balcão de negócio. Infelizmente, a situação é complicada nesse setor. Embora o ministério tenha interesse em fazer um controle mais rigoroso sobre as escolas médicas e o compromisso de regular a abertura de novos estabelecimentos, percebemos que isso não acontecerá em um futuro próximo. O Brasil não precisa de mais escolas médicas. Em todo o território nacional, somente o Amapá não tem uma escola de medicina. No restante do Brasil, a oferta de bancos escolares para medicina é mais do que suficiente. É preciso uma discussão ampla sobre o tema para dar transparência a esses e aos demais fatores que interferem negativamente na formação médica. Precisamos melhorar o ensino da medicina no Brasil, protegendo e resguardando o estudante. É uma obrigação de todos: da sociedade brasileira, do Conselho, do ministro, do presidente da República. Temos de proteger a juventude das mãos dos negociantes da medicina.
Qual a posição do CFM sobre a avaliação do Enade divulgada recentemente pelo MEC?
Qualquer processo de avaliação que busque colocar luz sobre o aparelho formador é interessante. Essas avaliações têm de ser conjugadas com ações para identificar os problemas e superá-los. Na lista do Enade muitas das escolas com classificação insuficiente são públicas e federais. Isso demonstra um abandono histórico, que não é somente deste governo, mas também dos demais que o antecederam. Este é um momento de reflexão interessante, com pontos positivos para o ministro da Educação, que mostra algum interesse, o que o diferencia de todos os demais que o antecederam, tanto do governo Luiz Inácio Lula da Silva, como no de Fernando Henrique Cardoso. A busca pela mudança está aí. O Enade é interessante, mas é apenas um instrumento, é insuficiente para identificar todos os problemas. Ele apresenta um determinado retrato, mas é preciso ver muitos outros ângulos para buscar qualidade para o formando em medicina no Brasil.
O governo tem uma proposta de definir as vagas da residência médica de acordo com as necessidades do SUS. Qual é sua avaliação?
O governo não tem claro conhecimento das necessidades do SUS. É claro que esta é uma estratégia interessante, útil e tem de ser incentivada, mas não é suficiente. O governo não sabe, por exemplo, quantos anestesistas ele precisa, ou quantos cirurgiões. Só sabe que precisa. Então, é preciso que tenha instrumentos para identificar corretamente as necessidades em saúde, e não realizar uma identificação exclusivamente baseada em discurso ideológico. Se falamos em gestão de recursos humanos, ainda que o discurso ideológico seja importante, ele entra em quarta categoria nessa discussão. Precisamos da análise correta das necessidades pontuais e o governo tem esses dados, basta olhar de maneira clara e desprovida de preconceito. Os médicos e nossas entidades estamos inteiramente dispostos a contribuir e colaborar nesse esforço da identificação do que é importante, com os recursos que possuímos e com os dados que temos dessa necessidade nacional.
O que pensa da criação da Ordem dos Médicos do Brasil?
É um sonho, é um objetivo futuro, como uma forma de fortalecimento. É um trabalho, um ideal que estamos construindo do CFM. Um dia vamos conseguir isso. Sempre trabalhamos na perspectiva de novas conquistas para os médicos. A Ordem tem esse sentido. Se não conseguirmos viabilizá-la em nosso tempo, ao menos a semente estará plantada. O mais relevante é o que as pessoas estão pensando, vão caminhar e construir. Não importa se depois de amanhã ou um pouquinho mais tarde. O essencial é que esteja no processo de construção. Hoje sabemos tranqüilamente que não existe diferença entre a Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina. Trabalhamos da mesma maneira, com as mesmas metas, porque discutimos e tomamos nossas decisões a partir de um consenso, e essa coesão não é uma concordância de diretores, gira em torno daquilo que nos prontificamos a fazer para que a vontade do médico seja soberana.

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